Psiquiatra americano Dan Blazer fala sobre a relação da ciência e religião

Em recente passagem por Brasília, para participar do 32º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Dan Blazer, psiquiatra americano e cristão, concedeu entrevista ao jornal Correio Braziliense e falou sobre religião e psiquiatria, dois campos que domina com propriedade.

Quando perguntado se a psiquiatria e teologia são conceitos opostos, disse. “Prefiro vê-los como complementares. Só quando nos recolhemos em um único modo de olhar o mundo, com pouco respeito por outros pontos de vista, os dois campos entram em conflito. Quando a psiquiatria tem uma visão totalmente materialista da humanidade, quando se descarta a importância da natureza espiritual das pessoas, ela certamente será contrária à teologia. Quando a teologia não reconhece que Deus dá as ferramentas que a psiquiatria usa para curar o sofrimento emocional, quando a teologia não considera as realidades do sofrimento humano através das doenças psiquiátricas, então ela certamente vai se opor à psiquiatria”.

Para Blazer, psiquiatras e teólogos, devem abrir suas mentes para as opiniões dos outros e não descartá-las. “Freud, psiquiatra e ávido ateu, não descartou a teologia. Ao contrário, ficou intrigado com a teologia e, talvez, a levou consigo em sua amizade que mais durou, com um ministro presbiteriano que estava interessado em psicanálise, Oscar Pfister. Precisamos continuar essas relações entre líderes espirituais, como Pfister, e psiquiatras, como Freud. Eles podem não concordar, podem até parecer estar em extremos opostos, mas, se conversarem, se compartilham ideias, se fizerem um esforço para entender um ao outro, então eu acredito que muito do conflito desaparecerá”, destacou.

Durante a entrevista, citou como equilibra a psiquiatria e religião em sua vida. “A psiquiatria em nenhum momento me fez duvidar da minha fé. Como um psiquiatra acadêmico, eu sei que nunca encontrarei todas as respostas e, na verdade, minha carreira seria muito chata se não houvesse perguntas restantes no horizonte para perseguir. Como cristão, eu acredito que Deus está acima de tudo e em todos. Não posso “cavar” as profundezas de sua sabedoria e poder. Em vez disso, fico maravilhado com sua criação. Por isso, em muitos aspectos, acho que minha vida como psiquiatra acadêmico e cristão não está em conflito; é uma vida significativa de admiração e louvor. Minha fé só fez crescer nesses anos de psiquiatria. E espero e confio que me tornei um psiquiatra cada vez mais competente e solidário por causa da minha fé.

Sobre o papel da religião e da espiritualidade no tratamento de transtornos psiquiátricos destacou: “Não podemos entender a dor infligida por um distúrbio como depressão crônica se não entendermos como a dor é sentida, espiritual, psicológica e fisicamente. Uma vez que entendemos o componente espiritual da dor, podemos recorrer aos recursos espirituais da pessoa que sofre, bem como os recursos da comunidade de fé a que pertence a pessoa, se ela pertencer a alguma (e a maioria tem um relacionamento com uma comunidade de fé)”.

Na entrevista observou ainda que a religiosidade excessiva pode ocasionar transtornos mentais, especialmente entre pessoas que se ligam a um movimento de culto e transferem todo o controle de suas vidas para outra pessoa, sob o pretexto de desenvolver uma vida espiritual mais profunda. “Muito dano pode ser feito a pessoas suscetíveis a transtornos mentais pelos chamados líderes espirituais, que não reconhecem isso e prejudicam o bem-estar psicológico das pessoas que colocaram sua fé em tais líderes. No entanto, devemos reconhecer que os transtornos mentais por si só podem (sem qualquer coerção externa) se manifestar através da espiritualidade excessiva”.

Sobre o fato do ser humano estar mais melancólico e depressivo, Blazer comentou que o problema existe desde os primórdios da civilização. “Nossa sociedade é muito complexa. Isso aumenta nosso estresse percebido, um estresse que não diminui ao longo de grandes períodos de tempo. O estresse e a ansiedade resultante que sentimos, eventualmente, podem causar depressão grave ou melancolia. Além disso, em muitos lugares, as pessoas não se sentem seguras. O constante estado de vigilância, tentando evitar a violência, certamente pode aumentar a frequência de depressão. A ameaça de violência é sentida não só por aqueles em perigo imediato, mas também pela maioria de nós por meio das imagens que vemos quase que instantaneamente na mídia”.

Quando perguntado se tivesse que escolher entra Darwin ou Gênesis, o psiquiatra foi enfático. “Sou grato de não precisar ter que escolher. Em minha opinião, a mensagem fundamental do Gênesis é que Deus criou o mundo, criou o homem à sua imagem, e continua a sustentar a sua criação, eventualmente, para resgatá-la. O Gênesis não é um tratado científico, mas é interessante notar que o surgimento da “teoria do big bang” sobre a origem do universo coincide com a ordem de Deus para que haja luz, nos primeiros versículos de Gênesis. Acredito que aprendemos muito sobre como a vida na Terra mudou ao longo do tempo, mas ainda sabemos pouco sobre como a vida surgiu, especialmente a existência humana. E eu acredito que a teoria da evolução nos proporcionou uma estrutura para entender muito dessa mudança ao longo do tempo. Podemos ver a evolução como um processo ainda hoje, quando vemos como mutações e/ou variações genéticas de organismos podem ser adaptáveis a determinados ambientes. No entanto, estamos diante de uma tarefa muito mais difícil quando tentamos olhar para trás, para as origens. Deus é o criador, eu sou a criatura. Não estou preocupado de não conseguir explicar em detalhes os mecanismos das minhas próprias origens ou as do universo. As escrituras dizem que “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem”. Eu posso viver com o mistério”.

Fonte: Correio Braziliense

 

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