Peter Higgs critica “fundamentalismo” antirreligioso de Richard Dawkins

ALOK JHA
DO “GUARDIAN”

Em se tratando de desentendimentos públicos, poucos já puderam se vangloriar de ter antagonistas que batem tão pesado.

De um lado está Richard Dawkins, o célebre biólogo que fez uma segunda carreira demonstrando seu épico desdém pela religião. Do outro está o físico teórico Peter Higgs, que em 2012 se tornou figura corriqueira nas apostas para um futuro Prêmio Nobel, depois que cientistas do Cern, em Genebra, demonstraram que estava correta sua teoria sobre como as partículas fundamentais obtêm sua massa.

Fabrice Coffrini/France Presse

O escocês Peter Higgs (à dir.) e seu colega belga, François Englert, que contribui para a teoria do bóson

O escocês Peter Higgs (à dir.) e seu colega belga, François Englert, que contribui para a teoria do bóson

A discussão deles gira em torno de nada menos que a coexistência entre religião e ciência. Higgs decidiu-se por coroar seu notável 2012 com mais um estrondo, ao criticar a abordagem “fundamentalista” adotada por Dawkins no trato com os crentes religiosos.

“O que Dawkins faz muitas vezes é concentrar seu ataque nos fundamentalistas. Mas há muitos crentes que simplesmente não são fundamentalistas”, declarou Higgs em entrevista a Pablo Jáuregui, do jornal espanhol “El Mundo”. “O fundamentalismo é outro problema. Quer dizer, Dawkins de certa forma é ele mesmo quase um fundamentalista, de outra espécie.”

Ele concordou com algumas das ideias de Dawkins sobre as consequências infelizes que resultaram de crença religiosa, mas estava descontente com a abordagem do biólogo evolucionista ao lidar com os crentes, e se disse de acordo com aqueles que consideraram tal abordagem “embaraçosa”.

Dawkins, autor do best-seller “Deus, Um Delírio”, já foi muitas vezes acusado de adotar posições fundamentalistas. Em um texto publicado em 2007 no seu site, intitulado “Como vocês ousam me chamar de fundamentalista?”, Dawkins escreveu: “Não, por favor, não confundam paixão, que pode mudar de ideia, com fundamentalismo, que nunca irá [mudar]. Paixão por paixão, um cristão evangélico e eu podemos estar equiparados. Mas não somos igualmente fundamentalistas. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que possa ‘acreditar’, na evolução, por exemplo, sabe exatamente o que o faria mudar de ideia: provas! O fundamentalista sabe que nada o fará mudar de ideia.”

As críticas não levaram o biólogo a abrandar sua posição sobre a religião. Em uma recente entrevista à Al Jazira, ele insinuou que ser criado no catolicismo é pior para uma criança do que sofrer abusos físicos de um padre. Respondendo a uma pergunta direta do entrevistador Mehdi Hassan, Dawkins relatou a história de uma mulher dos EUA que lhe escrevera contando o abuso que ela sofrera quando criança nas mãos de um padre, e a angústia mental por ouvir que uma amiga sua, uma menina protestante, arderia no inferno.

“Ela me contou que, desses dois abusos, superou o abuso físico, que foi nojento, mas ela superou. Já o abuso mental de falarem a ela sobre o inferno, esse ela levou anos para superar”, disse Dawkins. “Dizer a crianças assim que elas realmente acreditam que as pessoas que pecam vão para o inferno e assam para sempre, que sua pele cresce de novo quando você a arranca, me parece intuitivamente inteiramente razoável que isso seja uma forma pior de abuso infantil, que vai causar mais pesadelos, porque elas realmente acreditam.”

Dawkins não respondeu a um pedido para comentar diretamente a acusação de “fundamentalista” feita por Higgs.

Na entrevista ao “El Mundo”, Higgs argumentou que, embora não seja um crente, considera que ciência e religião não são incompatíveis. “O crescimento da nossa compreensão do mundo por meio da ciência enfraquece parte da motivação que torna as pessoas crentes. Mas isso não é a mesma coisa que dizer que elas são incompatíveis. Só acho que algumas das razões tradicionais para a crença, que remontam a milhares de anos, ficam bastante prejudicadas.”

“Mas isso não encerra com a coisa toda. Qualquer um que seja um crente convencido, mas não dogmático, pode continuar tendo a sua crença. Isso significa que eu acho que você precisa ser bem mais cuidadoso a respeito de todo o debate entre ciência e religião do que algumas pessoas foram no passado.”

CHORO

Ele disse que muitos cientistas na sua área possuem crenças religiosas. “Eu por acaso não sou um deles, mas talvez seja mais uma questão da minha origem familiar do que haver alguma dificuldade fundamental em conciliar as duas coisas.”

Em 1963, Higgs previu a existência de uma partícula portadora de força, parte de um campo energético invisível que preencheu o vácuo por todo o universo observável. Sem esse campo, ou algo parecido, não estaríamos aqui. O campo se agarra às menores partículas fundamentais e lhes dá massa. O campo, acionado momentos depois do “big bang”, permitiu que as partículas se unissem e formassem todos os átomos e moléculas que estão por aí hoje.

Na entrevista, o físico falou sobre o anúncio feito em 4 de julho de que o bóson de Higgs havia sido finalmente encontrado. Ele contou que dias antes havia recebido um telefonema de um colega no Cern, dizendo que ele se arrependeria se não comparecesse. Na hora do anúncio, Higgs começou a chorar.

“O que foi tão avassalador realmente foi a reação da plateia no Cern. Não era como um seminário científico, era como o final de uma partida de futebol quando o time da casa ganhou, e foi isso que foi tão avassalador para mim, fazer parte disso… Foi [caindo em prantos] uma reação às emoções ao meu redor, e o sentimento de que, bom, finalmente chegou! Foi difícil de lidar.”

Muitos cientistas acreditam que a descoberta coloca Higgs como franco favorito para um futuro Prêmio Nobel. Ele ficou aliviado, no entanto, pelo fato de o comitê do Nobel ter ignorado a descoberta no seu prêmio de física em 2012. “Fiquei aliviado, simplesmente porque desde o começo de julho ando ocupado demais lidando com solicitações para fazer isso e aquilo, a ponto de ficar feliz por não ter isso também na minha agenda, então descrevi isso como um alívio.”

Tradução de RODRIGO LEITE.

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