Calmaria no Sol intriga cientistas

A estrela está no ápice das atividades, mas a intensidade desse período é a menor registrada por astrônomos nos últimos 100 anos. O descompasso, segundo especialistas, pode alterar o clima da Terra

Em pleno auge do seu ciclo, quando deveria apresentar maior atividade de manchas e tempestades solares, o Sol se comporta com uma calma fora do normal. Tão incomum que o máximo solar, quando ocorre o pico de atividades, é o menor dos últimos 100 anos. Os cientistas ainda não sabem o que pode ter causado tamanha timidez do astro em 2013. Alguns apostam que o comportamento discreto seja uma tendência que se repetirá nos próximos ciclos e não descartam que a mudança provoque efeitos no clima terrestre.

 

“Se essa tendência continuar, não haverá quase manchas no ciclo 25 e nós podemos entrar em outro Mínimo de Maunder”, especula Marshal Penn, do National Solar Observatory, nos Estados Unidos. O episódio a que Penn se refere aconteceu entre 1645 e 1715, quando foram registradas baixíssimas manchas solares que coincidiram com uma onda de frio em toda a Europa. Joaquim Eduardo Rezende Costa, chefe da Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), conta que, nessa época, a contagem de manchas ficou quase em torno de zero.

 

“Isso durou cerca de 50 anos, período que compreendeu cinco ciclos solares. Há menções históricas de que a Europa viveu invernos rigorosos, e essa época ficou conhecida como pequena idade do gelo. Pode ser que o comportamento do Sol tenha tido influência, mas existem teorias que contestam isso”, pondera.

 

Os episódios, conhecidos como ciclo solar de Schwabe, são marcados por períodos de calmaria e atividade intensa. Segundo o astrônomo Alexandre Humberto Andrei, pesquisador do Observatório Nacional e do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a duração varia conforme o tamanho da estrela e da quantidade de elementos pesados que a constituem. “Uma estrela do tamanho e da idade do nosso Sol tende a ter ciclos de 11 anos, mais ou menos, e um não é igual ao outro.”

 

Outra anormalidade do ciclo 24, que se encerra neste ano, é a época em que se deu o ápice. O auge das atividades era esperado no ano passado. “O atraso de um ano ainda está dentro da normalidade, ainda que não seja comum que se atrase tanto”, acredita Andrei. Segundo o astrônomo, as mudanças começaram a partir do ciclo solar 22, que teve início em setembro de 1986 e se encerrou em outubro de 1996. Isso, supostamente, revelaria uma tendência. No Observatório Nacional, os pesquisadores acompanharam pequenos aumentos no tamanho do Sol, além de progressivas igualdades de temperatura nas manchas solares, que apresentaram diminuição. Apesar disso, a ciência ainda não tem mecanismos que consigam desvendar a razão que desencadeou tal comportamento.

 

Andrei cogita que é possível que os ciclos de 11 anos pertençam a eventos maiores, que agrupam uma série de ciclos menores. “O problema é que não contamos com nenhum mecanismo totalmente aceito pela comunidade heliofísica que possa confirmar esse comportamento. Então, a gente vê uma coisa que parece um fenômeno, mas não há um modelo claro que possa explicar isso”, ressalta o astrônomo.

 

Giuliana de Toma, do High Altitude Observatory, nos Estados Unidos, aposta nessa explicação. Segundo ela, registros históricos revelam ciclos fracos na virada do séculos 19 e 20, o que poderia indicar que esses ciclos mudam a cada século. “Não é fácil estabelecer uma teoria de que o os ciclos mudam nessas grandes escalas de tempo, e a comunidade científica ainda tenta compreender o que está acontecendo”, justifica.

 

Impacto na eletricidade

Além de efeitos no clima, o comportamento do Sol pode interferir nos sistemas elétricos. Quando o astro apresenta grande atividade, gera explosões que são capazes de até arrancar grandes pedaços de sua superfície. Eles viajam pelo sistema solar e, por vezes, chegam à Terra. “Esses pedaços interagem com o campo magnético da Terra, o que tem impacto na nossa eletricidade, já que essa força tem ligação com o magnetismo”, explica Andrei.

 

Mas o fato de o Sol apresentar baixa atividade, como agora, não garante a inexistência de problemas nos aparelhos tecnológicos, desde os mais avançados satélites até transformadores domésticos. Quando o astro está com o campo magnético desfigurado, ele apresenta buracos coronais — pedaços em que não há campo magnético e com pouca densidade de matéria. Nos ventos solares, há uma grande quantidade de partículas que não conseguem ser domadas pela estrutura magnética. “É como se fosse um cano com um pequeno furo pode onde a água consegue fugir. Um fluxo desse escapando também pode gerar tempestades geomagnéticas”, ilustra Andrei.

 

Para o especialista, mesmo que o comportamento tímido do Sol diminua em menos de 1% a energia que normalmente envia à Terra, ainda não é impossível imaginar como isso poderia afetar a vida aqui embaixo. Talvez, atenue os efeitos do aquecimento global e dê início a uma nova era climática, mas, por enquanto, nada pode ser confirmado.

 

“Não há modelos que possam explicar tudo. No entanto, há 20 satélites que captam diversos pontos de vista e, com isso, o Sol está sendo mais observado do que nunca. Isso é válido para a compreensão da ciência, pois podemos aproveitar a grande massa de dados para traçar análises e correlações que possam nos dar mais respaldo para interpretar essas mudanças”, avalia Andrei.

 

 

 

 

Palavra de especialista

 

Polo magnético 

muda direção

 

“Ao fim desses 11 anos, o que muda é o sentido do polo magnético. Ele estava em uma direção, podemos dizer grosseiramente que estava alinhado ao polo norte terrestre, mas agora está apontado para o sul. A rotação do Sol é desigual. Então, o seu equador gira mais rápido do que os polos. No interior da estrela, há uma curva na variação da velocidade. Imagine uma cebola em que cada uma das cascas gira em velocidade diferente. Isso gera um campo magnético que se desfaz no máximo solar, mas que se reconstrói lentamente. Quando o campo é desfeito, durante o máximo solar, aparecem as manchas e as ejeções coronais explosivas. Portanto, quando há o máximo solar, há o mínimo de campo magnético.”

 

Alexandre Humberto Andrei,  astrônomo

 

Fonte: Correio Braziliense

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