Alta de 1,5ºC na temperatura vai aumentar desigualdades e afetar mais pobres, dizem cientistas brasileiros

Cientistas brasileiros que participaram da elaboração do mais recente relatório sobre o clima divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas discutiram as consequências de um aumento na temperatura terrestre na quinta-feira (18) durante videoconferência. O relatório, apresentado no dia 7 deste mês, destacou a necessidade de limitar o aquecimento da Terra a até 1,5ºC, adotando medidas para que não atinja os 2ºC. As consequências dessa diferença, dizem os cientistas brasileiros, vão desde o aumento do nível do mar até mais pessoas atingidas pela fome.

“Mesmo 1,5ºC de aquecimento traria significantes riscos para erradicação da pobreza e redução de desigualdade. Nas zonas costeiras, traz impacto para a biodiversidade, a atividade pesqueira. Pode haver risco de fome principalmente em países da África. São 12 milhões de pessoas afetadas a 1,5ºC. Com 2ºC, são 55 milhões”, afirma Patrícia Pinho, pesquisadora do Centro de Resiliência de Estocolmo e uma das autoras do capítulo do relatório sobre desenvolvimento sustentável.

Os efeitos, afirma a cientista, poderão também ser sentidos na Amazônia, onde cerca de 30 milhões de pessoas seriam afetadas. “São das populações mais pobres do Brasil”, lembra. Outro coautor do relatório, Marcos Buckeridge, pesquisador associado da Universidade de São Paulo e coordenador do programa Cidades Globais, chama atenção para as consequências na região Nordeste. “É um ponto focal importante em termos de extremos de seca — mais ainda do que já temos. As populações que vivem ali vão estar em grande risco se o aquecimento passar de 1,5ºC. Vão ter que sair, não vão ter mais condição de ficar”, alerta.

Zonas costeiras

Conforme projeção da cientista Thelma Krug, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), a projeção para o ano de 2100 é que limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC pode significar uma diferença de 10cm no nível do mar. “Vai significar muito nas pequenas ilhas e todas as cidades em áreas baixas. E o nível do mar é o mais complicado de tudo, porque vai aumentar por décadas e centenas de anos, mesmo que parem todas as emissões”, afirma.

O pesquisador José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e professor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, destaca as consequências para os trópicos.

“Para o caso de um aquecimento de 2ºC, a geração de hidroenergia na bacia do São Francisco poderia diminuir 15% até 2040 e em 28% ao final do século”, alerta. Nas zonas tropicais, acrescenta, o problema não é só o aquecimento, mas também a falta de chuvas e os desastres naturais.

Mudanças

Os cientistas reiteram a necessidade de “mudanças sem precedentes” no padrão de consumo de alimentos, de modernização da indústria brasileira e de maior conscientização quanto à necessidade de evitar o aumento excessivo na temperatura terrestre. “Com a população chegando a 13 bilhões por volta de 2040, vamos ter que produzir mais alimentos, e a nossa forma de produzir emite muito carbono. Uma das maiores emissoras é a produção de carne. Vamos ter que mudar as tecnologias usadas na agricultura, integrar às florestas, e essas tecnologias não estão maduras”, afirma Buckeridge. As mudanças, segundo ele, precisariam ser feitas o mais rápido possível, de forma a evitar gastos ainda maiores no futuro.

Ele alerta, ainda, que o aumento na temperatura pode influenciar na qualidade dos alimentos: as culturas de milho, por exemplo, começam a cair quando os termômetros vão acima de 35ºC. Para a soja, o limite é de 39ºC. Há, ainda, mudanças a serem feitas na geração de energia — que, segundo Buckeridge, talvez já tenha atingido o seu potencial máximo na forma hidroelétrica. “Nada disso pode ser feito se o Brasil não modernizar a indústria. Precisa de tecnologia, não é só mudança de costume e atitude”, pontua.

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